Atendendo ao blog Pensando em Família,que está promovendo uma blogagem coletiva sobre o mesmo assunto, achei oportuno postá-lo aqui:

Eu sou a mulher invisível. E não sou a única. Há muitas, centenas, milhares de nós.
Invisíveis somos, pois guardamos histórias que você finge não conhecer. Invisíveis somos, por que mesmo vivendo em um século onde a velocidade de comunicação é enorme, não temos voz.
Não nasci invisível, embora muitas de nós tenhamos esta condição desde o nascimento, dependendo do lugar em que nascemos.
Fui me tornando invisível aos poucos: primeiramente, tolheram-me a espontaneidade e logo em seguida a iniciativa. Depois, a vez em que mais chorei: tiraram-me a voz.
Como você já deve ter percebido, não fiquei invisível porque quis. Ao contrário dos contos de super-heróis, a invisibilidade para mim não é um poder. Antes é uma maldição.
Nós, as invisíveis, estamos espalhadas pelo mundo inteiro e todas sofremos com esta condição. Algumas mais que outras, mas todas sofrem.
Ser invisível é horroroso. Acaba não somente com a voz, mas também com a autoestima e a vontade de viver.
Às vezes conseguimos nos fazer notar, rompendo por um breve tempo a barreira de invisibilidade. Neste breve instante, as pessoas que conseguem nos ver ficam chocadas com as marcas que ostentamos. Mesmo que tenhamos recuperado um fio de voz antes disso e falado às pessoas, é com as marcas que elas ficam mais impressionadas.
Nesta hora em que a invisibilidade some por um tempo, algumas de nós logram êxito e não retornam à triste condição, porém, não raro boa parte é empurrada de volta à invisibilidade, até mesmo por quem deveria nos proteger.
As pessoas julgam, de forma errônea, que apenas há sofrimento se marcas puderem ser vistas. Ignoram que as marcas mais profundas e doloridas são invisíveis, assim como somos a maior parte do tempo. E se não são vistas, não existem.
Mas o sofrimento é real. Nós somos reais.
Muitas pessoas também julgam que somos invisíveis por que quisemos assim, o que não corresponde absolutamente à realidade. Pelo menos, não conheço ninguém que goste de sofrer.
E tem gente que acha que gostamos de sofrer, que estamos nessa situação por única e exclusiva culpa nossa. Que provocamos nossa invisibilidade, pior: que esta condição é a ideal. Que devemos ser assim porque é essa a sina de nós, mulheres. Nada mais errado. Ninguém neste mundo gosta de ouvir que deve aceitar e resignar-se. Nem a igreja exige mais tanto sacrifício como a sociedade tem exigido. Devemos nos resignar a um ideal que enaltece e ao mesmo tempo deprecia a nossa condição de termos nascido mulheres. Não pedimos para ser invisíveis. Não pedimos para nos afogarem em tantas atribuições. Não pedimos para sermos tratadas com violência. Tampouco é por livre vontade que aguentamos traições e palavras duras e com medo não expressamos nosso sofrimento, mesmo porque, estamos invisíveis, quem vai prestar atenção?
E não se enganem, mulheres com melhor situação financeira também correm o risco de ficarem invisíveis. Apesar de ser mais difícil, principalmente se forem celebridades. Porém, há mulheres invisíveis também entre as mais famosas. O que se vê é uma máscara.
No momento, sou uma mulher invisível. Mas não é isso que me resume. Sou mais que uma invisibilidade imposta. Eu sou a mulher que desde pequena conheceu o abuso, vindo de um parente próximo e que por ser criança tinha medo e me calava.
Também sou aquela que mesmo criança denunciou o abuso e foi tachada de mentirosa, além de ouvir daqueles que deveriam cuidar de mim – inclusive outras mulheres – que eu era uma piranhinha, que já havia começado cedo a mexer com homens.
Eu sou aquela mulher que simplesmente quer estudar, mas tem de tomar cuidado para esconder o máximo possível de seu corpo ao pegar o ônibus para a escola, pois sempre há algum engraçadinho achando que pode lançar cantadas, tocar, falar palavras indecentes em alto e bom som. E que é tida como mal-humorada, por não saber aceitar uma brincadeira inocente!
Sou aquela que desistiu de estudar, pois o curso era à noite e é muito perigoso passar sozinha pelo trajeto entre a casa e a faculdade.
Eu sou aquela mulher que escolheu uma pessoa amável, meiga e carinhosa para dividir sua vida, sua casa, preocupações, alegrias e que viu esta pessoa converter-se com o tempo em alguém violento, ranzinza, que esmaga dia a dia a autoestima e a vontade de viver.
Eu sou aquela mulher que trabalha o dia inteiro para poder dar dignidade à família, para auxiliar o companheiro ou companheira que também
trabalha duro e que ao final deste dia tem de deixar a casa e a família organizadas, sendo censurada ao manifestar sinais de cansaço.
Eu sou aquela mulher que sonha simplesmente em poder ir ao trabalho a pé, de bicicleta, sem ter de ouvir frases grossas, ver gestos obscenos, ser segurada pelo braço e morrer de medo de ser violentada e até perder a vida.
Eu sou aquela mulher que durante o trabalho tem de aguentar, além das condições estafantes, cantadas ridículas, salário menor que homens na mesma função, chefes descontando a raiva, piadas sobre inabilidades para dirigir e palpites desnecessários sobre o tipo de roupa que devo vestir.
Sou aquela mulher que sonha em entrar em uma lanchonete, fazer um pedido, comer meu lanche e tomar meu suco sem ser perturbada por homens sussurrando grosserias em meu ouvido.
Sou aquela mulher que simplesmente quer exercer o direito de ir e vir, garantido na Constituição!
Sou uma, sou várias, sou todas, pois todas nós temos uma história de horror para contar.






