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Submerso




 I miss the comfort in being sad, I miss the comfort in being sad...

    Bernardo dedilhava no velho violão, de forma lenta, talvez da mesma forma que Kobain teria dedilhado antes do tiro fatal. 
Aquela viagem estava sendo mais uma coisa estúpida, no amontoado de outras coisas sem sentido que seus pais lhe impunham desde o diagnóstico de depressão, que recebera no ano anterior. 

   Sentia-se cansado, simples assim. Não era de nenhuma ajuda os conselhos que vinha recebendo desde o diagnóstico: desde o clássico "é falta de Deus no coração" até " estes remédios estão fazendo mal a você". Tá, os remédios estavam fazendo mal? Então por que o tio enxerido que veio com essa não jogava as injeções de insulina fora, para ficar bem? 
  
 Os pais ficaram tão afoitos em "curar a depressão" a qualquer custo, que a cada mês um plano mirabolante era posto em execução para desespero de Bernardo, que só queria continuar levando a vida normal que levava, pelo menos dentro do que fosse possível. 

Um mês foi uma viagem de avião para ver um show de rock, outro mês foram sessões de psicoterapia (pelo menos desta vez ele conseguiu se sentir um pouco melhor), no seguinte a psicoterapeuta foi dispensada pois os pais não viam "nem um sorriso" no filho, e trocaram por sessões de ioga. O problema não eram as ideias, era a falta de paciência  dos pais com o processo. Bernardo, coitado, não tinha voz. Mal conseguiu protestar quando as sessões de psicoterapia e ioga foram suspensas pois os pais dele não estavam vendo resultado - poxa, que resultados queriam em um mês apenas? 
         
Agora estava em um cruzeiro, sendo obrigado a dividir uma cabine com os pais, que estavam com a ideia fixa de que passar um mês em uma forçada convivência familiar era o que faltava para dar equilíbrio a eles e deixar Bernardo "melhor da cabeça". De que adiantava ter pais ricos a ponto de poder sair a passeio de férias quando dava na telha, viver rodeado de bens materiais, se o que ele mais precisava era simplesmente ser ouvido? Será que era tão difícil eles perceberem isso?

      Seu único conforto ultimamente era a troca de mensagens com Sabrina, sua melhor amiga, com quem passaria mais tempo pessoalmente se não fosse a mania dos pais de correr mundo. 
Sabrina era a primeira a dar "bom-dia" e quem desejava bons sonhos quando Bernardo, enrolado nas cobertas, fixava a tela do celular, escondendo-o debaixo do travesseiro quando alguém chegava perto. Era ela quem tinha sempre uma palavra amiga, o ombro onde Bernardo poderia desabafar, e ótima ouvinte nos momentos em que não sabia como ou o que falar para ele - e quando palavras não precisavam ser ditas. 
Era a única conversa no WhatsApp que não apagava, nem mesmo os gifs mais bobos. Quando não conseguia ficar online, revisitava todas as conversas, relendo as palavras reconfortantes de sua amiga.  
  Naquela noite, ficou um tempo observando as ondas revoltas do mar, sentindo a brisa e o doce barulho das águas. O cheiro e gosto de sal chegava até sua boca, levando lembranças de uma infância e início de adolescência felizes. 
Não sabia precisar o momento em que os dias começaram a parecer-lhe uma sucessão de momentos cinzas e sem graça. Tinha momentos felizes, claro, mas algo sempre o instigava, não deixava a sensação de felicidade ser completa. Sorria, sem o brilho nos olhos. Conseguia gargalhar, mas o sentimento era agridoce. Cada dia passado era um alfinete a mais espetando-o de forma invisível. Os pais, com suas constantes mudanças de planos, estavam sem perceber fazendo a situação de Bernardo piorar. Ele bem tentava dizer que se sentiria melhor ficando em sua casa, perto de seus amigos, continuando a estudar, enfim, se esforçando para manter a rotina, porém mesmo tendo bastante acesso à informação seus pais continuavam todo mês sugerindo algo diferente, como se esperassem que a situação de Bernardo se resolvesse em um passe de mágica. 
"Tente a receita desta forma. Se não deu certo, mude um ingrediente. Se não deu certo de novo, mude o fogão, ou as panelas, ou os temperos. Nem suspeite que você pode estar fazendo algo errado com os ingredientes que tem". 
Após escrever esta anotação em seu bloquinho - Bernardo tinha uma coleção de bloquinhos onde anotava ideias genéricas a respeito de tudo - rasgou a folha e a prendeu na cadeira onde estava. Aproximou-se da proa e suspirou fundo, sentindo a maresia. Com o violão, dedilhou e cantou baixinho:
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto que isso passa, 
Amanhã é outro dia, não é? 
Será que algum dia conseguiria pelo menos fingir estar sempre bem? 
Um movimento em falso fez o violão escorregar. Bernardo contemplou, incrédulo, o instrumento se precipitando  em direção às águas escuras e frias, o ruído do contato entre seu velho companheiro e as ondas. Deixou-se ficar aí, observando  até mal divisar o contorno do violão afundando, despedindo-se. Bernardo imaginou onde ele cairia,se ficaria no fundo do mar, rodeado daqueles peixes abissais sobre os quais lera há tempos em algum site científico. Ou se acabaria nas areias de alguma praia,em outro canto qualquer do mundo, talvez em um lugar onde acabaria parando com seus pais, já que não tinha ideia de quanto tempo ficaria naquele navio. 
Por um momento pensou em mergulhar naquelas águas frias, na escuridão, como seu violão fizera involuntariamente. 

Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida. 
Sentia-se assim, submerso. Como seu violão estaria em breve, imerso no desconhecido, no fundo de algo, onde os ruídos do mundo chegavam abafados e indistinguíveis. Sentiu o celular vibrar. Era Sabrina. Como, por graça de Deus, esta menina ainda mantinha contato com ele, ainda o suportava? 
Não me dê atenção.. mas obrigado por pensar em mim. 
Sem saber, devia sua vida a Sabrina, mais uma vez. O celular vibrando o tirara por instantes do devaneio em que se encontrava, do ímpeto de satisfazer o desejo de seguir seu velho e agora perdido violão. 
Oi, já é noite aí? Em que país você está? 
Nem sei, Sabrina. Não sei se já saímos da costa brasileira. É noite e só vejo oceano. 
E como você está se sentindo agora? 
Perdi meu violão, Sabrina. Cheguei perto demais da proa
Puxa... Fico triste por você... Sei como amava seu violão. 
Sim.. 
Sabrina gravou um áudio para animá-lo. Bernardo catou rapidamente de seu bolso os fones de ouvido e estava se preparando para ouvir, quando uma voz estridente ecoou pelo convés agora já vazio: 
-Bernardoooo... vem dormir, fica com a gente! 
Era sua mãe. Dando uma última olhada para  as águas agora mais escuras, pegou a folha do bloquinho que deixara na cadeira e foi encontrar a mulher, que tinha uma expressão preocupada no rosto. 
 Sem protestar, entrou em sua cabine, deu boa-noite aos pais, deixou que apagassem a luz e escondeu-se sob o cobertor, para poder ouvir a voz de sua amiga antes de tentar dormir. 
Um áudio simples, em que ela exaltava a amizade dos dois e prometia a Bernardo que ele poderia contar com ela sempre, sempre que precisasse. 
"Obrigado", ele enviou. "Você me entende melhor que qualquer pessoa neste mundo. E se, ou quando, eu voltar, faremos aquele passeio que vivo te prometendo. Pode me cobrar". 
Voltou a pensar no seu violão e na viagem que ele estaria fazendo, ao sabor das ondas, deixando Bernardo sozinho. Pensou sobre o inferno que sentia passar, sobre suas amizades, os tratamentos que ficaram incompletos. Era menor de idade, mas precisava se impor de alguma forma, estava sendo arrastado pelos pais para algo que não queria fazer. Com o brilho da tela do celular, encontrou no chão a folha que havia rasgado de seu bloco.  Silenciosamente, colocou-a sobre o criado mudo que estava ao lado da cama de seus pais. Talvez, só talvez, isso os ajudasse a perceber que algo estava errado naquela viagem maluca que eles organizaram, sem sequer revelar a ele o roteiro. 
De olhos abertos,virado para cima, um último pensamento chegou a Bernardo antes que o cansaço o vencesse: algum dia aquilo teria fim? 




(Quando comecei este conto, a ideia era a personagem seguir o destino do violão.. mas acabei amolecendo e fiquei com pena de matar Bernardo. Preferi deixar o questionamento, mostrando a angústia que as pessoas que tem depressão passam e o sofrimento de imaginar se algum dia este inferno terá fim. ) 



Depressão não é frescura. 
Depressão nem sempre tem um motivo forte ou é fruto de trauma. 
Depressão É DOENÇA. E precisa de tratamento. 
Depressão mata, e preconceito também. 
Depressão não é apenas tristeza, esqueça os estereótipos. 



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