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A pulseira, o relógio e a vida

A pulseira do meu relógio quebrou. Foi numa queda, um tombo quase infantil.
Estava tão acostumada a viver com esse relógio no pulso, que pensei comigo mesma: assim que sair do trabalho, mando consertar.
Mas... os dias foram passando. Era meio difícil, pois nem sempre o relógio nas salas de aula marcavam o horário certo, ou então eles paravam. E eu vivia esquecendo de, ao sair do trabalho, parar na bendita relojoaria. E fui procrastinando o conserto, que parecia tão importante.
Os dias logo transformaram-se em semanas, meses. O relógio continuava em um cantinho da bolsa, marcando o tempo, lembrando de forma cruel que a vida passa. E a pulseira, em outro canto, partida em três.
Fui me acostumando a ver as horas no relógio da sala mesmo. Perdi o tique de viver olhando para o pulso vazio. Quando o relógio da sala não funcionava, colocava o celular para despertar em momentos que precisaria de um alerta (desligado, afinal não se pode usar no trabalho!).
Quatro meses se passaram. Na semana passada, finalmente tomei vergonha na cara e entrei na relojoaria:
- Preciso consertar a pulseira do relógio.
Reviro a bolsa, procuro os três pedaços. Faltava um. Não quis nem pensar em onde poderia estar. Melhor mesmo pedir uma nova. Quinze reais. Em menos de cinco minutos saí da relojoaria, começando a me acostumar de novo com o relógio aí, no pulso.
Mas minha relação com ele, assim como a pulseira, é outra. É nova.
Estava tão acostumada a usar o relógio, que parecia ser essencial sair de casa com ele.
Em quatro meses percebi que ele não é tão importante assim.
Volto a usar, claro. Mas ele é importante; não essencial.
Penso que muitas coisas, relações, acontecimentos - e o Criador que me perdoe por escrever - pessoas são assim na nossa vida: parecem muito importantes, indispensáveis,por estarmos o tempo todo com elas, acostumados com sua presença.
Mas um dia, algo acontece e muda o continuum em que nos encontramos: pessoas saem de nossas vidas, relações deixam de existir, mudamos de endereço, de emprego, ou até mesmo um relógio quebra.
Pensamos que o relógio vai fazer muita falta, que não haverá um emprego como aquele, que aquela pessoa não deveria ter ido embora, aquela amizade não deveria ter sido desfeita. E queremos tomar logo uma atitude para consertar, emendar os pedaços.
Nem sempre dá para consertar os pedaços do que foi quebrado.. Às vezes é mais vantajoso providenciar algo novo. O relógio aqui é o mesmo. A pulseira até é parecida com a anterior, mas não igual.
E os dias vão passando,por um motivo ou outro não parece mais tão urgente consertar o que está quebrado. E vamos percebendo que o que nos acompanhava há tanto tempo não é tão indispensável assim.
Algum dia, a pessoa pode voltar. A gente pode pedir desculpas e "tudo ficar bem". Aquilo que parecia importante, depois de nos acostumarmos com sua ausência, pode voltar. Mas não vai ser a mesma coisa.
O relógio? Estou usando, mas tiro assim que chego em casa. E consulto poucas vezes no dia, apenas o essencial.
E você? Só você sabe quais pulseiras já quebraram em sua vida, e se o conserto foi rápido, lento - ou não foi feito. 



Comentários

  1. Nossa!
    Você consegue refletir sobre a vida até mesmo quando uma pulseira de relógio quebra! Isso sim é habilidade... ^^

    Mas realmente é nos pequenos detalhes que percebemos a vida como ela é...

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  2. Boa noite, Marina.
    Comigo acontece algo semelhante, o relógio parou (acho que por causa da pilha que acabou) e fiquei de mandar arrumar e simplesmente me desacostumei a ele.
    Acho que tem muita coisa na vida da gente que é assim mesmo, damos valor demasiado mesmo sem precisar.
    Abraço.

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  3. Olá Mari,
    Adorei o texto e essa comparação do passagem das coisas/pessoas por nossas vidas com a pulseira de um relógio trocada. De fato a vida é dinâmica e quando perdemos, digamos, uma oportunidade, um momento que seja, estes jamais se repetirão da mesma forma e com a mesma intensidade. Bem, quanto a pergunta digo que hoje não, mas ao longo da minha vida tive que trocar a pulseira várias vezes e assim obtendo essa experiência, no entanto sabemos que nada é para sempre.

    Belo texto.
    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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  4. Gostei da maneira que conduziu o texto Mari. Realmente foi uma boa comparação, uma analogia aos sentimentos/importância que as pessoas e coisas ocupam na nossa vida.
    O distanciamento por algum motivo, deixa um espaço que outras pessoas preenchem. O ser humano está em constante mutações e os sentimentos e valores acompanham essa mudança.
    Uma boa reflexão.
    bjks doces e um bom fim de semana.

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  5. Relógios são bons para refletir sobre o tempo. E você refletiu bem, pois realmente as vezes damos importância demais a coisas que não verdade não são tão fundamentais, ao mesmo tempo vale lembrar que existem muitas coisas fundamentais e que as vezes não damos o mínimo valor.

    Abraço,
    http://decifrandopordeiselima.blogspot.com.br/

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  6. Adorei!

    Tuas colocações foram tão pertinentes. Acontece muito disso, as pulseir quebram, pedaços se perdem e o tempo não deixa de ser marcado por conta disso. Nós seguimos em frente, "apesar de"

    Muitas foram as "pulseiras" que quebraram em minha vida, algumas nunca foram consertadas, outras nunca foram as mesmas. Faz parte.

    Milhões de beijos

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  7. Magnífico texto, soberba analogia entre coisas corriqueiras que muitas vezes não damos sequer importância e a vida! Meus sinceros parabéns, não só pela feliz escolha e profundidade tocante do tema, mas pelas narrativas, além de criativas, exemplarmente escritas!
    Um abraço e até mais...

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  8. Texto incrível, a analogia que fez com a quebra da pulseira do relógio de forma infantil com as relações que quebramos com as pessoas em nossas vidas e nem sempre nos importamos em conserta-las por que no fundo não faziam tanta diferença assim.
    Abç

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  9. ótimo texto, gostei mesmo
    bjs

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  10. Quando meu último relógio parou parecia que eu estava nua, mas com a falta de tempo para mandar consertar descobri-me sem ele e... sobrevivi! Hoje não consigo mais colocar um relógio no pulso, às vezes, uso o de dedo, mas no braço nunca mais (eu acho) eles incomodam e fazem a gente suar. Da mesma forma são com as pessoas, parecem insubstituíveis quando na verdade não são.
    Bjoks

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